Entenda como a erosão marinha muda a paisagem e a rotina dos moradores de Florianópolis

  • 10/06/2021


Onze construções foram interditadas por conta do risco de desmoronamento. Local é monitorado pela Defesa Civil. Morro das Pedras em Florianópolis (SC) Diogenes Pandini/NSC “A gente não pensa no amanhã, aí o mar vem quebrando tudo mesmo, tomando tudo”. É assim que Amilton Damásio de Andrade sintetiza e lê o futuro do bairro vizinho, o Morro das Pedras, em Florianópolis. Morador do Campeche, o pescador de 66 anos que passou toda a vida com os olhos no mar do Sul da Ilha percebe a água salgada cada dia mais perto da terra firme. Assim como as tainhas nas águas geladas na costa da Ilha no inverno, a ressaca é tradição na Capital. Mas diferentemente dos peixes que são motivo de festas entre os moradores, o fenômeno do avanço do mar naquela região mudou a rotina dos moradores, trouxe medo após destruir casas e levar para o oceano blocos de concreto que um dia foram paredes. O fenômeno também mudou tradições e reduziu a praia. Nos dias de maré cheia, a vista fica restrita a quem mora na região. Segundo Amilton, pescadores do Campeche que antes lançavam as redes até a praia do Morro das Pedras à procura das tainhas mudaram a posição do lanço. Agora, as redes chegam até a metade da praia vizinha. “Tinha até rede que ia ali no Morro das Pedras, mas agora não estão indo por causa das tranqueiras lá, do mar está comendo tudo ali no costão. Estão cercando até a metade da praia, mas não estão pegando muito para lá para não estragar as redes”, conta o pescador. VEJA TAMBÉM: Com avanço do mar, erosão resulta em interdições e ameaça casas em Florianópolis; FOTOS Segundo a Defesa Civil, até quarta-feira (9) a área de erosão marítima do Morro das Pedras teve um aumento, de 400 para quase 600 metros registrados nas últimas semanas. "A escarpa erosiva continua próxima às residências, que já interditamos o que estão em risco. Seguimos monitorando porque com solo encharcado e previsão de mais chuvas até sexta-feira e mar agitado pode aumentar a erosão", disse o gerente de operações e assistência da Defesa Civil da Capital Alexandre Vieira. Na última semana, 11 propriedades, incluindo 3 residências, foram interditadas e a área foi isolada pela Defesa Civil por risco de desabamento após o mar chegar mais perto e provocar queda de escombros. Desde o dia 10 de maio, os funcionários da prefeitura passaram a monitorar a região e trabalham em ações emergenciais para tentar minimizar o desgaste da estrutura e evitar novos desmoronamentos. “Por enquanto o mar não está recuando. Assim que isso ocorrer vamos fazer a limpeza e escavações para a retirada dos escombros, madeiras e até mesmo dos dois postes que caíram”, disse Vieira. Com a combinação do mar agitado e a chuva da última semana, em especial na quarta, que causou estragos em várias cidades de Santa Catarina, os moradores temem que as casas sejam ainda mais comprometidas. Erosão em bairro de Florianópolis intensifica ações da Defesa Civil e preocupa moradores Segundo Sidnei Ferreira, morador de uma das casas mais afetadas pela erosão marinha costeira, a casa chega a tremer durante as noites em que as ondas do mar ficam mais ferozes. Segundo a Defesa Civil, ao menos 14 casas chegaram a perder até 8 metros de terreno há cerca de um mês. Cinthia Sens, moradora do bairro desde dezembro do ano passado, afirma que já gastou R$ 20 mil para construir barreiras com sacos de areia que tentam atrasar o processo de erosão. “Além de ser um trabalho infinito, é uma conta infinita”, afirma. Os bags de contenção foram autorizados pela Defesa Civil municipal. Imbróglio A questão da erosão marítima na região é discutida na Justiça há anos. Em uma decisão recente, o desembargador federal Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), determinou que a prefeitura adote providências para garantir a segurança dos habitantes e frequentadores do Morro das Pedras. O pedido, que foi inicialmente negado pela 6ª Vara Federal de Florianópolis, levou em consideração no TRF4 o entendimento sobre os riscos que envolvem o direito dos habitantes à moradia, à segurança e à proteção do ecossistema. O despacho é do dia 5 de junho. “Há indícios de que não haveria incremento de riscos ao meio ambiente pela determinação de que a prefeitura tome medidas que tem engenheiros e técnicos para tomar as devidas providências emergenciais para proteger a segurança dos moradores, inclusive do autor da ação”, disse Favreto. Segundo o desembargador, a permissão em caráter excepcional, de que sejam feitas intervenções na faixa de praia. “Por ora, para justamente ter a manutenção de situação concreta o mais próxima possível daquela já presente no local, para que se possa, eventualmente, tratar do mérito da questão e obter-se uma solução definitiva. Além disso, as medidas ora postuladas são reversíveis, diferentemente do que ocorrerá acaso venha, de fato, a desabar a residência na faixa de praia e no mar”, explica. O bairro de Morro das Pedras fica na região Norte da Ilha de Santa Catarina Diogenes Pandini/NSC Ainda de acordo com a decisão, para a execução das medidas de contenção, o município de Florianópolis deverá proceder à instalação de estruturas que sejam, de um lado, efetivamente eficazes para conter os riscos de desabamento do imóvel, e de outro, de menor efeito adverso possível ao meio ambiente no local. "Proceda à instalação de estruturas capazes de impedir o desabamento do imóvel citado na petição, sob pena de multa diária de R$ 1 mil por dia de atraso", consta na decisão. De acordo com a Defesa Civil, o município ainda não foi notificado da decisão até a noite de quarta. Massiva erosão Segundo o oceanógrafo Gabriel Gomes, o processo de erosão que ocorre na região é natural, mas está em desequilíbrio principalmente por conta das construções sobre as dunas. Esse ecossistema que possui vegetação de restinga tem como função realizar uma barreira para o mar não avançar. Vital para o equilíbrio da praia, o chamado "balanço sedimentar" iguala a quantidade de areia que perde para o mar e ganha durante as marés. No entanto, de acordo com pesquisador que escreveu uma dissertação sobre o tema durante o mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ao longo dos anos as construções dificultam esse processo. As construções tiveram início na década de 1960 e aumentaram a partir dos anos 1980. Conforme o oceanógrafo, a região que antes tinha uma tendência de estabilidade no processo de erosão, e até pontos de aumento da faixa de areia, foi perdendo espaço para o mar. “A partir da década de 1980, com a ocupação mais em massa da Planície do Campeche, com a melhoria da infraestrutura da [Avenida] Pequeno Príncipe, chegada de luz e etc, a gente começa a ter essa ocupação das dunas. E o que a gente percebe hoje, pelos resultados obtidos, é que a região está agora em déficit, agora a região é massivamente erosiva”, explica. Moradores de Morro das Pedras, em Florianópolis (SC) Diogenes Pandini/NSC Mudanças climáticas Para a professora do Departamento de Geociências da UFSC, as águas vão avançar com cada vez mais força sobre as praias. Segundo a oceanógrafa, isso ocorre por conta das alterações do clima em curso que deixam ainda mais vulneráveis as áreas costeiras. Consequentemente, as populações que moram nessas regiões também serão prejudicadas: “A gente está tendo ventos mais intensos que aumentam a maré e as ondas ficam mais altas e energéticas. Então, elas têm um poder maior de erosão nas praias”, afirma. Segundo Gomes e a professora Regina, nas próximas semanas a tendência é de que o mar diminua a sua potência. Assim, parte dos sedimentos que foram retirados da praia durante o processo de ressaca voltarão para a praia. No entanto, a erosão da região tende a continuar. Solução Para a cientista da UFSC e integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climática das Nações Unidas (IPCC), a solução para o problema é o investimento em estudos para entender a gravidade da erosão na região. “A minha opinião é de que teria que ser investido um pouco mais em pesquisa, porque depende da praia. Tem região e cidade que talvez dê para fazer algumas medidas e deixar a população ali, mas tem lugares em que a melhor saída é tirar a população. Mas tem que investir", aponta. Conforme a Defesa Civil, por enquanto não há estudos específicos que envolvam o problema da erosão no bairro. Morador auxilia em reforço da contenção Diogenes Pandini/NSC Erosão marítima acontece no local desde o mês de maio, segundo Defesa Civil Diogenes Pandini/NSC VÍDEOS mais assistidos do G1 SC nos últimos dias Veja mais notícias do estado no G1 SC

FONTE: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2021/06/10/entenda-como-a-erosao-marinha-muda-a-paisagem-e-a-rotina-dos-moradores-de-florianopolis.ghtml


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